terça-feira, 26 de maio de 2026

A Epidemia do Pensamento Mágico: Quando a Lógica Vira Inimiga da Utopia e a Distopia cria asas!

Há cerca de trinta anos, um sonho recorrente me assaltava o sono. Eu me via deitado, dormindo em pleno Trevo do Boqueirão — mas não como ele é hoje, e sim como costumava ser antigamente. A cena se repetia com uma insistência quase agressiva. Eu brigava com aquela imagem, tentava decifrá-la, até que finalmente entendi: aquilo não era um aviso cósmico, era um estado mental, um pequeno surto ou desalinho da própria mente que insistia em criar uma realidade paralela e inviável.

O curioso é que, trinta anos depois, percebo que o que antes era um curto-circuito mental e isolado de um indivíduo tornou-se o "novo normal" coletivo. Assistimos hoje ao avanço global de um estado doentio, cujo principal sintoma é o horror ao estudo e a repulsa completa à lógica elementar. O delírio deixou de acontecer à noite; ele agora dita as regras do debate público à luz do dia.

O exemplo mais gritante dessa desconexão com a realidade está na forma como a sociedade urbana debate a sua própria sobrevivência: a comida. 

A Matemática da Terra vs. O Romance de Gabinete

Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que tudo o que está disponível para comer no planeta, e que vem da terra, exige cultivo, escala, tecnologia e suor. No entanto, o jargão ideológico resolveu decretar: "O agro é fascista".

Faz algum sentido lógico? Nenhum. Mas a narrativa sobrevive. Propõe-se, então, o desmantelamento do modelo agroindustrial para que o mundo passe a viver exclusivamente da agricultura familiar.

Vamos trazer a lógica de volta à mesa: alguém realmente acredita, em sã consciência, que milhões de pessoas vão abandonar o asfalto, a internet, o ar-condicionado e as comodidades da vida moderna para se mudar para o campo? Alguém genuinamente crê que o cidadão urbano vai capinar o sol a sol para alimentar a própria família e, por pura caridade, enviar o "excedente" (geralmente sem controle de qualidade ou escala) para sustentar quem ficou na cidade?

A agricultura familiar é essencial e tem seu valor cultural e econômico local, mas transformá-la na única matriz de subsistência de um planeta com 8 bilhões de bocas não é um projeto econômico — é um delírio antiromântico e até das trevas, de quem só vê a terra pela tela do celular.

A Contradição Gourmet

A hipocrisia desse pensamento mágico se revela nos detalhes cotidianos. Quem frequenta ou conhece a dinâmica de uma CEASA (Centrais de Abastecimento) sabe muito bem o destino de qualquer mercadoria que apresente o menor defeito estético, uma mancha ou uma picada de inseto: o descarte ou a desvalorização brutal.

A pergunta desconfortável que fica no ar é: você consegue imaginar o militante de apartamento, o crítico do agro moderno, consumindo esse produto imperfeito, azedo ou atacado por pragas em nome da sua pureza ideológica? Claro que não. O purismo estético do consumo gourmet exige a perfeição que só a tecnologia e a escala conseguem entregar. Quer-se o bônus da modernidade, mas aplaude-se o discurso que prega o seu fim.

Matar a Galinha pela "Cura Espiritual"

Chegamos, assim, ao ápice do nosso tempo: a inversão absoluta dos meios e dos fins.

Todos concordam que dar de comer a quem tem fome é um imperativo moral e humanitário. O problema é a solução proposta pela militância da ignorância logística. Querem resolver o problema da fome destruindo a estrutura que produz o alimento. É o equivalente exato de matar a galinha dos ovos de ouro acreditando que o sacrifício trará alguma espécie de cura espiritual ou elevação moral.

O sonho do Trevo do Boqueirão, no fim das contas, virou profecia. O mundo resolveu deitar no meio do cruzamento perigoso da história, fechou os olhos para a ciência, para a economia e para a matemática, e insiste em dormir o sono dos inocentes. O despertar, contudo, promete ser doloroso. Afinal, a ideologia pode alimentar o ego, mas nunca conseguiu encher a barriga de ninguém.

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